The Blog

Um estranho no ninho

A Srta. Ratched mantém seu olhar horizontal, vivo como um vaso de planta, organizado como uma gaveta de documentos e claro como uma água suja. Consegue dizer coisas sem falar. E quando fala, movimenta somente os lábios superiores, nada mais, parece que até a língua ficou parada no tempo. E completamente, como nunca vi tão completamente, filiada ao discurso da verdade e instalando o medo até numa montanha, responde ao paciente: “O tempo passado com os outros é terapêutico. Ficar sozinho aumenta a sensação de isolamento”.

Eu, quietinha do outro lado, apertando um joelho no outro, com os cotovelos para dentro e segurando minhas unhas. Um asterisco em minha boca. Fico assim quando arredondo meus olhos num filme em que eu nunca queria ser nenhum dos personagens.

“Um estranho no ninho” – adoro a tradução – quantas vezes a gente não se sente assim? Eu não quero ser o louco, nem quero deixar de ser. Não quero vestir uniforme branco, nem azul marinho, nem qualquer outro. Não quero ser quem ganha toda vez. Também não quero ser surda-muda.

E o estranho, quem quer ser o estranho? O estranho se diverte, faz amigos e vai para o quarto com a moça. Briga com vontade e coragem, mas antes conversa. Sabe que ninguém é louco o tempo todo ou todo o tempo deixa de sê-lo. Que a casa da normalidade não é um abrigo com as portas fechadas. Por mais confortável que seja aceitar as coisas e concordar com tudo o que nos dizem, alguma hora teremos uma indigestão. E qualquer um pode, a qualquer momento, se enganar, morder uma isca e ser fisgado para fora – ou para dentro – de um ninho.

No entanto… alguém quer ser o estranho?